Aspectos da emigração portuguesa nas últimas décadas
I
Fazer o estudo da emigração
portuguesa torna-se importante tendo em conta o aumento progressivo e significativo de
portugueses que saíram do país, principalmente nos anos de austeridade da
Troika, qual sangria ocorre(u) de forma dramática e irreversível.
II
Vou começar nos anos 80
do séc. XX, e encontro várias curiosidades. A emigração ficou assinalada
pela existência de movimentos emigratórios e imigratórios. Apesar de
oficialmente se ter declarado extinto o fluxo dos anos 60 e 70, verifico
uma evolução positiva, ainda que, com novos destinos e com novas modalidades
decorrentes dos novos contextos e da evolução havida nesses países europeus. Ocorreu
ainda uma maior diversificação de destinos e de formas migratórias. (Marques,
2003, cit. por Baganha).
Nos anos 80 verifico
uma reorientação dos fluxos para novos destinos, como foram a África do Sul,
Austrália e Canadá. Mas a diminuição relativamente a décadas anteriores foi uma
menor presença familiar e pelo aumento dos que anualmente regressavam a
Portugal. Os dados disponíveis indicam que, depois de 85, houve um aumento das
saídas, menor mas sem parar, principalmente para países europeus. A Suíça
tornou-se o mais importante pólo de atracção, em detrimento da França. Assim,
enquanto a França recebeu 6%, a Suíça acolheu 59% dos emigrantes portugueses.
Houve também um aumento de entradas no Canadá e nos Estados Unidos, que
representou uma média de 30% do total das saídas de portugueses. (Baganha,
Peixoto, 1997)
É também significante que na
maioria dos países de acolhimento, a população portuguesa tenha duplicado entre
1985 e 2010, o que mostra a força dos fluxos emigratórios portugueses. Os casos
da Suíça, Andorra, Espanha e Reino Unido são exemplos claros dessa
consolidação, tornando-se nestes países, comunidades portuguesas bastante
numerosas. (Dados confirmados no site do Observatório da Emigração)
Os dados ilustram ainda a
inserção de Portugal no sistema migratório da Europa Ocidental e a variedade de
destinos insere-se nos quadros nacionais dos diversos países. Assim, por
exemplo, a diminuição de emigrantes em Espanha, devida aos problemas de
trabalho no país, foi compensada pela entrada de portugueses na Alemanha ou no
Reino Unido.
Verifico ainda o
aumento de fluxos emigratórios para o Brasil e para a Angola, principalmente
este último, devido à intensificação das relações lusoangolanas, com uma forte
componente comercial, nomeadamente com as importações do petróleo, as
exportações portuguesas e a participação de empresas portuguesas em projectos
de investimentos na área da construção civil, por Portugal e do investimento
angolano no nosso país em empresas e prédios urbanos. (Marques, 2003, cit. por
Baganha)
III
Ao número de saídas mais
permanente preciso contar também o movimento de saídas temporárias que
aumentou nos últimos anos e que resultou do processo de globalização em curso,
do desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, do aparecimento
das companhias de aviação low-cost na Europa e da flexibilização da contratação
laboral. Estas formas de migração temporária, constituem desde os anos 80, uma
característica importante dos movimentos de saída de portugueses para países
europeus. Como aconteceu por exemplo na Suiça, em que, o valor das entradas
temporárias de portugueses, foi durante os anos 80 e 90 de 33000 e 16000 nos
primeiros anos do séc.XXI. Em França, os números referentes à entrada
temporária de portugueses, passou de 14000 em 1989 para 16000 em 1991. Outro
exemplo de mobilidade temporária é constituído pelos trabalhadores destacados,
principalmente na região de Berlim. São os trabalhadores portugueses que são
colocados no exterior, efectivos de empresas portuguesas subcontratadas de
empresas alemãs ou até francesas, embora não se saiba com rigor o número de
portugueses contratados, sendo até o maior número grupo de trabalhadores
contratados com origem num país membro da União Europeia. Mas houve outros
destinos, a Espanha, 37,4%, a França, 33,8%, a Alemanha, 11,8% e em 2010 e
2011, foi também para a Holanda 13%.
Os diversos tipos de
saídas temporárias para países da União Europeia ou para países com relações
privilegiadas, como a Suíça, assim como os movimentos migratórios de natureza
mais permanente, beneficiam das possibilidades de livre circulação na União
Europeia. Assim, em várias décadas desenvolveram-se padrões de mobilidade
internacional apoiados em diversas interligações entre os vários destinos e
Portugal e na participação regular e grande no mercado de trabalho
transnacional.
A estruturação de vários
destinos no interior do sistema migratório europeu, permitiu a diversificação
das oportunidades migratórias, podendo concluir que a particularidade da
emigração portuguesa contemporânea decorre da multiplicidade desses destinos migratórios
que vão sendo accionados de acordo com as oportunidades que emergem e se
desenvolvem nos vários países de destino e cuja manutenção no tempo é
condicionada pela evolução deste conjunto de oportunidades e pelo surgimento de
estruturas migratórias alternativas. (Marques, 2003, cit. por Baganha)
As transformações
efectuadas nos movimentos emigratórios contemporâneos resultam das alterações verificadas
no mercado internacional de trabalho e na sociedade portuguesa. Há assim
características diferenciadas nomeadamente ao nível da qualificação dos que
actualmente saem do país, surgindo na opinião pública e no discurso académico
informado, como uma das maiores especificidades. Ora, a emigração contemporânea
apesar de continuar a ser maioritariamente pouco qualificada, tendo em conta
estudos efectuados e informações dos media, regista-se um aumento na proporção de
pessoas com níveis de qualificação superior. (Docquier e Rapoport, 2012),
referem no seu estudo, sobre a evolução da “fuga de cérebros” nos últimos anos,
que Portugal tem sido um dos países mais afectados pela emigração qualificada,
com uma taxa de 19,5%, da força de trabalho qualificada. (Marques, 2003, cit.
por Baganha)
IV
Nas relações exteriores, posso
dizer que não existe uma estratégia unificada por parte do estado português
para com os portugueses residentes no exterior. As iniciativas existentes têm
hesitações, ambiguidades e formas diversas de actuação conforme os
protagonistas políticos exercendo o poder no Estado.
Em termos institucionais,
a relação do Estado com os emigrantes caracteriza-se pela transformação,
em 1980, da Secretaria do Estado da Emigração, na Secretaria do Estado da
Emigração e Comunidades Portuguesas. Esta alteração constituiu um aumento no
campo de acção não só a registar os fluxos migratórios mas mostra o interesse
do Estado em aumentar as suas relações com os cidadãos portugueses a viver e
trabalhar noutros países. Procurou fazer aumentar a ligação dos emigrantes à
sociedade portuguesa, como por exemplo, a criação de condições favoráveis à
manutenção da língua e cultura portuguesa.
Noto ainda, após alguns anos de
inactividade, no final dos anos 80, o Conselho das Comunidades manteve as
competências da promoção da ligação dos emigrantes a Portugal e a defesa dos
seus direitos, sendo-lhe atribuída mais duas, a primeira, a promoção do diálogo
entre os emigrantes portugueses e as instituições e autoridades dos países de
acolhimento, de modo a fomentar a participação dos portugueses no campo social
e político dos respectivos países. A segunda, promover a cooperação com outras
organizações de emigrantes e participar no diálogo comas instituições dos
países de acolhimento.
Em suma, apesar da breve
história do Conselho das Comunidades, está marcada por várias alterações no seu
funcionamento e na sua estrutura, a sua existência no sentido de estender a
participação democrática dos portugueses residentes no exterior e incluí-los
nas decisões políticas que os afectam.
Para além das medidas de
tipo institucional, intensificaram-se as relações entre os emigrantes e os
países de origem através de um programa de ensino da língua e cultura
portuguesa para os filhos de emigrantes. Foi estendido o direito de voto nas
eleições presidenciais mas de reduzida inscrição nos cadernos eleitorais.
Outro tipo de vinculação
do Estado às suas comunidades tem a ver com os instrumentos operacionais que
permitem retirar proveitos económicos e políticos, nomeadamente em relação às
remessas enviadas pelos emigrantes para Portugal, que tem tido uma importância
grande na economia portuguesa, e por isso, conduziu a uma preocupação mais
efectiva e mais intensa por parte do Estado português.
V
Mas a realidade objectiva recente veio
mostrar números cruéis. Assim, em 2015, havia mais de 2,3 milhões de
emigrantes portugueses espalhados pelo mundo, mais 10% do que em 2010. E a
grande maioria não pensa voltar…
Pode mesmo dizer-se que é
o maior número de emigrantes portugueses de sempre. É o maior número de saídas
dos últimos anos, que estabilizou em cerca de 110 mil por ano, sendo só
comparável à vaga que ocorreu no final dos anos 60 e início da década de 70.
Mas não foi só o grande volume de partidas que contribuiu para este número
recorde de emigrantes portugueses. O facto de a grande maioria dos que partiram
não ter regressado, fez com que, em termos cumulativos nunca tenha havido
tantos emigrantes, como refere o Observatório da Emigração.
Hoje não são apenas os
mais pobres e desqualificados que têm deixado o país. A percentagem de
emigrantes com formação superior a residir nos países da OCDE praticamente
duplicou entre 2001 e 2011 (cerca de 6% para 11%) e com tendência para subir nos anos recentes.
A emigração portuguesa
está a assumir características estruturais e o seu impulso a partir de 2010
pode permitir que continue a um ritmo muito elevado, ainda segundo o
Observatório da Emigração. O enorme crescimento que a emigração teve na segunda
fase da crise, a partir de 2010, terá criado as condições para continuar em
níveis muito elevados, mesmo passada a crise, com níveis tão altos como
actualmente. As oportunidades de circulação, de informação e de oferta de
carreiras profissionais no exterior, devem continuar a ser superiores às
existentes em Portugal, e a existência de núcleos portugueses fora do país que
podem apoiar novos emigrantes, vão tornar menos arriscado o projecto
migratório.
Bibliografia
Amaral,
Susana Teles, Marques, Ana Paula, 2013, Registos
discursivos sobre os profissionais altamente qualificados. Comunicação ao XI
Congresso de Sociologia.
Baganha,
Maria, 1994, As correntes emigratórias e o seu impacto
nacional, Análise Social, XXIX, 128.
European
Comission, 2012, “Porting of workers in the Europe Union and
EFTA”.
Observatório de Emigração, Relatório de 2016.
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